segunda-feira, 6 de agosto de 2012

PALAVRAS NUAS

‎" E a vida segue com seus sons de fim de tarde. Barulhos de carro passando, buzinas, sinais de trânsito, malabares e palhaços inesperados brincando de trabalhar com a graça pelas ruas e praças, avenidas e quintais. Risos, falas que ficam ao vento, poesias libertas dos dedos, um pouco além daquilo que entendemos... Apenas sílabas, palavras soltas na brisa e nada mais. Mas há a palavra que fica e também aquela que volta. Há palavras que colam em nossa língua, céu da boca, garganta, coração, feito grude encantado. Essas palavras não se dissipam, são incapazes de desaparecer de nossas vistas e versos... Repetem-se sempre na tradução de uma emoção secreta, de uma canção descoberta, de um amor imensamente estranho que corrompe as regras e não segue opiniões, único em sua complexa totalidade. A palavra simplesmente acontece no percurso de uma vida inteira, em todas as estrofes do poema amanhecido, recém nascido, ainda no berço. Mas a vida segue, palavra por palavra. As que ficam e as que vão. As que nos divertem e as que nos fazem chorar. As que nos fazem desejar partir e aquelas que nos fazem ficar... Palavras, palavras, palavras... Entreolham-se, interpõem-se, interligam-se... Feito folhas dançantes, umas sobre as outras, como alegoria de outono bailando no ar da tarde mais vermelha. A vida segue com seus rios de neblinas e máscaras, segue sobre os trilhos das despedidas, sobre os olhos do encontro, segue seus passos na areia do tempo, inutilizando o descaminho e o abandono das horas. Tudo é um segmento de dias e noites que se misturam entre cabelos e corpos que seguem entrelaçados como no primeiro minuto. Ontem é o resultado de hoje, porque somos avessos. Os erros são novos e os amores não são mais os mesmos. Somos puros e nossos corações estão em chamas, as brasas são fortes e a fogueira é bonita, seremos fogo sempre, ainda que mornos, ainda que poucos, ainda que filhos da água. Nossas palavras estão coladas uma a outra, atadas como gêmeas carnes e dentes. Somos noivo e noiva. Manhã de outono, tarde de inverno... Quando a primavera chegar, talvez eu ainda esteja aqui e a gente possa brincar de contar letras e estrelas em astrolábios de papel crepom. Minha palavra se molha e se seca diante da sua... Formarei frases nuas e despropositas: “Liberta ME Que SEREI tua!” E seremos uma só intenção, sinônimos, emoção, correndo soltos pela alma colorida um do outro.” 

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