segunda-feira, 30 de abril de 2012

AMOR FELINO (Para Hércules, meu gato preto)

Enrosca-se
em meus tornozelos
com seus pelos
como quem conhece
os meus desmazelos
Me espia
como quem sabe
e mia
como quem já me sabia.

domingo, 29 de abril de 2012

SENTINDO

Eu gosto desse cheiro que fica 
que se esparrama pelo sonho
quando vem a madrugada
Gosto dessa pele que roça
desse corpo que se enrosca
sem palavras...
Gosto dessa boca que beija,
beija, beija
e não exige nada.

sábado, 28 de abril de 2012

O SAL DA IDADE

"Saudade é uma palavra que eu não sei sentir.
Saudade é uma palavra que eu não sei.
Saudade é uma palavra.
Saudade é.
Saudade."

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ENTRE PARTIDAS E CHEGADAS

PARA DICO, CUNHA, CLARA, ANA, GABRIELA E PARA A ÁFRICA 
(UMA POESIA MUITO PESSOAL)

"Partir a parte de mim 
que me versa em poemas simples,
que me cobre de beijos
pela manhã encoberta de risos,
que dança pela casa sua inocência toda,
que enfeita meu cinza de colorido
e que me envolve em nova ausência muda
quando parte.

Partir a parte de mim que me cabe,
que sabe de minhas tolices
mas ainda assim vive 
como não soubesse nada,
como só houvesse a chegada.

A parte de mim que parte
leva uma parte de mim
que se modifica
na minha parte que fica."

SEM POSSE

‎"Sendo sua, 
não posso mais 
ser só minha.
Minha, 
agora está além
do que eu sentia,
quando ser só sua
não havia."

terça-feira, 17 de abril de 2012

TE BEM QUERER

O meu querer bem
tem um bem
que mais ninguém tem,
é olhar
no fundo do seu olhar
mais profundo
e me ver lá também.

sábado, 14 de abril de 2012

INCÊNDIO

prove
aprove
reprove
mas deguste
sem embuste
e me veja
seja
o alvo
ressalvo
da minha
palavra
acesa.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

FARSA

De onde mesmo eu vinha
quando tudo desmoronou?
Pra onde mesmo eu vou?
Porque somente agora
me apavora
essa ideia de não saber,
de não ser?
Quem saberá o que eu não sei,
de mim,
daquilo que serei?
Justo eu, que de nada sei.
Nada sei!
A não ser desse tudo que não fui eu.
Em que instante
a vida que era minha se perdeu?
Sou uma farsa improvisada
em meios versos?
Sou todo esse deserto?
Só há perguntas
sem nenhuma conclusão...
Seria uma perfeita alucinação?
Só ilusão?
Sou ilusão.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

DESPERTAR (Para o bicho que me espreita por dentro)

Enquanto você se esconde em minhas torres
cortando os céus do meu domínio,
enquanto se alimenta dos meus pastos
e transpõe os meus escudos,
enquanto venta em meus moinhos
os seus uivos mais estridentes,
enquanto entredentes
rasga minhas flores
e abrevia as cores das minhas manhãs,
enquanto quebra meus relicários
e profana meus talismãs,
enquanto corrompe meus guardiões
e derruba minhas muralhas,
enquanto se espalha...
eu continuo atenta ao momento
de acordar
em que você será
apenas o esquecimento.
Será?

A FLOR E A LAPELA

E a flor que se arranca do chão
é a flor semeada em vão
voa vento em qualquer direção
vai varrendo essa concepção...

Vai envolvendo a flor
em brisas de despedida,
vai colhendo seu sopro de vida.

E a flor desbotada já não cora,
e vai levando seu sonho embora,
de apenas por um minuto
saber-se a poesia no mundo.

A flor que se arranca do chão
é só uma flor que se arranca do chão.

Ela não era uma flor tão bela!
A flor onde falta uma pétala,
não fica bonita em nenhuma lapela.


EXPECTATIVA

Eu já esperei muito tempo que os dias passassem,

já esperei demais portas se abrirem, cortinas se fecharem,

a noite cair, a fogueira acender, a bebida gelar, o isqueiro funcionar.

Esperei muito tempo até que meus olhos se abrissem,

que meus pés entendessem as pedras pontiagudas do caminho.

Esperei por horas um telefonema, uma canção

que tivesse meu nome, um brinde em minha homenagem.

Esperei ser amada, ser traída, ser sujeitada, ser demolida, ser punida,

ser agarrada, mordida, ferida...Sempre esperando o lobo mau chegar.

Esperei na fila do cinema, na borracharia, no banheiro,

na calçada, no ponto de ônibus, em casa.

Eu já esperei filho, duas vezes, já esperei leite secar,

fralda coarar, mamadeira esfriar, pediatra chegar,

febre baixar, criança arrotar...

Já esperei em fila de padaria pelo pão fresco,

pelo doce de abóbora com queijo e a broinha de fubá.

Eu já esperei arrumada, descabelada, de calcinha.

de escova, de baby liss, de dente escovado,

limpinha, fedida, cansada, acesa...

Já esperei um beijo, um toque, um afago,

um olhar, um motivo, uma madrugada...

Já esperei alguém chegar, alguém partir,

alguém chorar, rir, morrer de rir,

rir até explodir!

Eu sempre esperei o fim do filme, do livro,

da história, da novela.

Sempre esperando e esperando chuva, sol,

vento, mansidão...

Eu já te esperei tempo demais!

TEMPOS MODERNOS

Os tempos mudaram.

Os homens agora carregam nos ombros o muito que os envelhecem...

Carregam o tédio e o gosto dos dias como fossem insossos,

Como se não houvesse mais gosto em olhar o tempo passar,

Em perceber um sorriso chegar,

Como fosse preciso diminuir um pouco a luz das estrelas

Para não atrapalhar seus pensamentos

E se esquecem de guardar o som doce daqueles momentos

Em que ainda se curtia curtir os sentimentos.

Os tempos mudaram.

As coisas que pareciam simples, agora se derramam

Complexas e fartas em dissonâncias.

Confundem sinceridade com arrogância,

Amor com sexo sem medida,

Consumo exagerado com qualidade de vida

E ainda querem culpar o grilo do jardim

Por suas noites mal dormidas!

Os tempos mudaram

O mais importante não é o que se pode ver,

Como a lua no céu prateando o mar,

O sol no horizonte a arder,

O som de risos farfalhando pelo ar,

Mas aquilo que se pode ter,

O que se pode comprar,

Enquanto isso cérebros se atrofiam em frente a TV

E as saudades estouram feito bolhas de sabão,

Diante dos olhos e em vão.

Os tempos mudaram.

A fome se espalhou pelos arados,

As doenças nos chegam como enlatados,

Prontas pra consumir sem moderação.

A emoção virou coisa para os fracos

E manda quem tem mais quinhão.

Os tempos mudaram.

Os valores se inverteram,

Os velhos anos já morreram.

Os tempos mudaram

E eles nem me avisaram

Pra mudar a fantasia que eu vestia

Enquanto os dias passavam.

.

HÁBITO

Você me habita com a pressa dos dias passados,

Com as verdades ditas ao pé do ouvido

Enquanto a lua caprichosa nos despia.

Me habita com a mesma urgência de ontem,

Quando eu podia ver no seu olhar

Os muitos mistérios dos mares,

Quando íamos a todos os lugares

Navegando em uníssono, um no corpo do outro.

Quando aos poucos nos encontrávamos

Em pensamentos e manhãs

E assim, o sol ia iluminando o seu sorriso

Enquanto eu me molhava no seu espelho

E as horas iam embotando meus olhos,

Desafinando minha língua,

Me deixando lívida de tanto te amar...

Você me habita como as tardes

Que ainda me ardem aos ombros,

Com essa sensação tépida das marcas que ficam,

Pulsando na pele.

Me habita com sua voz reverberando no meu peito

As mesmas palavras do nosso tempo de antes...

Os lençóis já não são os mesmos,

Já não são os mesmos sonhos e nem a mesma janela

Por onde passava o frio fino das nossas aventuras e madrugadas,

Mas você ainda me habita

Da mesma maneira inteira com a qual me habitava.

terça-feira, 10 de abril de 2012

ESTÚPIDA

“Sou uma estúpida!

A minha estupidez traduz-se nos olhos.

Tenho olhos crédulos e enfadonhos

que me delatam aos espelhos toscos que me cercam.

Minha carne é estúpida.

Trêmula ela padece sórdida sobre os lençóis limpos

Que a deveriam cobrir.

Minha beleza é de uma estupidez frívola e insana.

Ela não é real.

Ela é meu vestido branco pronto para a festa.

Ela é a mentira que alimenta a minha volubilidade indócil e degenerada.

Ela é o nada.

E o que é o ser humano visto do avesso,

Que não a sua própria estupidez encarnada?

O que é o homem depois de despido e cru

Em face da sua dor e verdade?

A minha estupidez me consagra imperfeita e pálida

E redefine meu contexto, meu nexo, meu sexo, meu texto, meu pretexto,

Minha crença ancestral, meu grito primal,

Meu bolor, meu odor, minha procura, minha caricatura,

Minha resenha, minha senha,minha usura, minha postura...

Sou uma estúpida!

Criatura deformada pelos ditos deveres, pelos falsos saberes

Que me aprisionam ao que na verdade não sou.

A minha estupidez está cravada em meus ossos como vermes ,

Em minha língua como brasa,

Em meus pés como pedras.

Saboreio a minha estupidez vagarosa e francamente,

Dolorosa e friamente

E permito que ela me provoque ânsias,

Que me esvazie de mim...

Face a face com a minha tragédia

Eu me alegro, enquanto sinto os cortes,

Enquanto choro os açoites,

Porque percebo-a indubitavelmente trigo,

Irremediavelmente semente.

O mundo é hipócrita e eu sou uma estúpida!

A olhos nus ela me salva de minha tortuosa mentira,

Ela me liberta dos véus que eu via antes,

Me limpa dessa ira que habita meu seio.

E eu, estúpida que sou,

Nua diante de uma platéia coberta e febril,

Posso garantir que é melhor ter a alma devassada,

A perder-se na imensa bruma flutuante para sempre,

Ainda que seja dor, ainda que eu sangre fervorosamente,

Prefiro ser estúpida a permanecer demente.”

INTROSPECTO

O silencio morto das coisas de ontem ainda me habita.

Me habitam também o medo e a ansiedade.

Caminho agora pra dentro de mim.

Para dentro.

Estou vazia de avisos e já não sei mais do que sou capaz.

Tudo é escuro e sombrio depois da próxima curva.

Acho mesmo que posso enlouquecer e tenho verdadeiro pavor

Desse outro animal que mora em mim.

Bem no fundo.

No fim, somos todos animais, iguais em peso e medida.

Os mesmos quadrúpedes de antes,

O mesmo primitivo e velho homem predador e fugaz...

Os mesmos.

Estou presa a essa tese do pensamento

Onde o mundo gira ao redor,

Enquanto eu,

Vou cumprindo meu destino extraordinário de ser gente.

Apenas.

A FERA INFERNAL

Uma fera caminha pela cidade

e ela arde sua urgência infinita,

protegida pelo encanto de algum deus maldito e covarde.

Seu rito traduz a própria perdição e crueldade,

quando pelas arestas da paixão, silenciosa, ela age.

Seus olhos são como duas luas amarelas perniciosas,

espalhando pela noite secreta dos inocentes,

coisas que jura, mas não sente.

Garras mais afiadas que o corte quente de uma navalha,

sempre prontas a rasgar

as carnes lânguidas em suas batalhas.

Dentes afiados

por onde escorrem filetes de insanidade

e hálito ardente de cio e vontade.

Uma fera caminha pela cidade,

sorrateira como um rato,

a espreitar o próximo ato

para somente depois do jogo terminado,

voltar ao inferno,

de onde nunca deveria ter se levantado.

ABISMAL

Eu me entrego à morte terrível do meu ego,

a perturbação dos meus passos

que se desnorteiam e se fragmentam no corpo vil

que eu alimento fora de mim.

Ouço a voz que deturpa o sentido das coisas,

das cores que vejo, das teorias em que acredito

e não posso conte-la,

simplesmente porque não consigo.

Os mitos se dissolvem líquidos

diante dos olhos incrédulos e relutantes

e a teoria sobre o amor

que tanto apregoavam os amantes,

já não me basta.

Eu me entrego à morte súbita da razão

e faço da emoção um território inóspito e descolorido,

como quem se lança ao abismo

em um único salto imprevisível,

numa tentativa desesperada

em descobrir o que existe depois do nada.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

ENQUANTO EU MORRIA

Enquanto morria, as manhãs de inverno padeciam mais úmidas

E eu passava horas arqueada sobre elas,

Envolta em cobertas porosas,

De olhos fechados para o que havia fora de mim.

Enquanto morria, os livros envelheciam na estante empoeirada,

As rosas morriam na minha janela

E a página secreta de um velho poema

Ia se tornando frágil e amarela.

Enquanto morria, a aquarela do meu céu escorria para dentro do nada,

Sinos repicavam seus acordes frêmitos em doses ensaiadas

Enquanto meu rosto tépido, de mar, se molhava.

Enquanto morria, as borboletas levaram minha poesia,

Sem deixar-me sequer uma única palavra

E eu, em frígido e miserável escárnio me tornava.

Enquanto morria, dentro de mim tudo se espalhava,

Fragmentando-se em cacos e revoadas retirantes,

Cortantes como navalhadas quentes,

Que faziam-me sangrar aos montes e sem piedade.

Enquanto morria, tudo era canção de ir embora,

O primeiro dia, a última hora, o momento exato do meu fim

Onde o tempo girava e se escondia,

Enquanto fora do tempo, havia um tempo que morria em mim

domingo, 8 de abril de 2012

LAÇOS (A Poesia da Viagem ao Centro do Mangue-07 de Abril/2012))

Eu quero mais espaço,

Aço, verso e poesia

Quero mais tempero na minha vã filosofia,

Mais de mim, mais do outro,

Que ser mim já não importa quando dois.

Quero o muito desse pouco,

Que me sacie a fome de depois

E me embriague de rimas,

Me desassossegue a alma.

Que seja chama correndo no rastro dos outros,

Enchendo meu copo de sina,

Transbordando esse corpo profundo e aos poucos.

Eu quero esse laço de cores

E essas cores em fitas,

Essas paixões vibrantes,

Essa busca bendita,

Essa voz reverberante

Que me espalha no vento,

Ser esse ser em constante movimento.

Esse que pulsa maior que tudo

E mudo fazer poesia como fosse alimento,

Na batida do tempo,

No romper dessa aurora,

Sem a pressa de chegar,

Sem vontade de ir embora.

Eu quero mais alvoroço nos meus cabelos,

Mais eriçar de pelos

E mais peles nos meus apelos,

Mais palavras entre os dedos,

Mais tom nos meus tropeços,

Mais bagagem nos recomeços.

Eu quero ver a chuva molhando a vida

E sua semente de sonhos bem nascida,

E ter minhas raízes bem fincadas na memória,

Perpetuando o contraste da minha história.

Sendo minha terra, ser também navegante,

Tendo no meu chão a minha amante

E fazer meu lugar em todas as mentes

Nessa busca única e persistente.

Quero ser esse observatório de gente,

Essa nave incandescente

Que acolhe, recolhe e sente

E que vai rimando universos pela jornada,

Ser essa voz, esse grito, essa encruzilhada,

Ser essa porteira aberta pra ver passar a boiada,

Essa lua cheia que clareia a madrugada.

Ver as ruas se cruzarem pelos mares

E mergulhar no vento indo a todos os lugares,

Ser folha, ser montanha, ser espelho,

Ser branco, amarelo, preto e vermelho.

Eu quero a minha mão espalmada pra receber

Aquilo que a vida tiver pra oferecer

E ser grata ainda que faça doer.

Quero esse som de batucada no meu peito,

Esse estardalhaço de poetas no meu sonho ,

Quero ser mais que a causa, o efeito,

É isso o que eu sendo mim me proponho.

Eu quero deixar minhas marcas no caminho,

Que me siga quem se sente sozinho

E vamos fazer uma revolução de passos

Nos muitos abraços que puder,

Enlaçando de estrelas os sorrisos

Nos muitos céus que a vida tiver.

Eu prefiro ser todo o mundo

A ser apenas essa mulher.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

MIL PERDÕES

Me perdoa pela falta de tato

Com a sua fotografia no porta retratos?

Se eu mandar um bando de ratos

Roerem suas roupas

Você me perdoa?

E se eu quebrar todas as louças

Da sua casa e revirar seus armários?

Se eu mandar um advogado a sua porta

Cobrar honorários

Pelo tempo que perdi com você?

Você vai conseguir compreender?

Me perdoa pelas vezes em que te xinguei,

Pelas pragas que eu roguei,

Pelas pedras que atirei

E por aquelas que sei ainda vou atirar?

Por tudo o que eu disse

E pelo que nunca foi dito,

Pelo que vou escrever

E pelo que já foi escrito?

Se eu mandar matar você

Dentro de mim,

Você me perdoa mesmo assim?

Se eu arrancar você da cama

A tapas e arranhões, beliscões e palavrões,

Em gritos histéricos no auge da loucura?

Se eu quebrar seus dentes

E você tiver que gastar com próteses e dentaduras?

Se eu pichar no muro da sua casa

Em letra de imprensa:

“Aqui mora um homem com sua frieza imensa!”

Ou então

“Não se aproxime! Amar esse homem pode causar

Danos a sua saúde mental

E deixar sequelas em seu fundo emocional.”

E se eu ligar as três da manhã

Para em um afã te chamar de covarde,

Egocentrista,monstro narcisista, machista,

Estupido,burro,porco chauvinista e manipulador,

Você me perdoa, amor?

Mas no fim,

O que sobra pra mim é o fato

De eu nunca o perdoar

Por não teres me amado.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

POEMA DO OLHAR BREVE

Eu te olho com meus olhos de rima e terra farta.

Olhos imperfeitos de brisa e manhã.

Olhos de espera e vontade.

Olhos meus secando o aguaceiro das suas tardes.

Eu te olho com meus olhos breves,

Mais leves que a brisa benfazeja,

Como quem espera apenas um ensejo

Para na força de um beijo

Te ancorar onde o meu olhar deseja.

A VIDA EM PONTO E VÍRGULA

A vida é uma imensa colcha de retalhos,
Talhos na carne da história.
Uma luz acesa nas sombras,
Um conto de perdas e glórias.
A vida é um mar revolto,
Um arco íris torto sob o céu,
É um véu que se rasga aos poucos...
A vida é esse imenso habitat dos loucos.
Ora ruína falida de anseios e culpas,
Ora alegria e paz absolutas.
A vida é esse mistério velado,
Esse ciclo sem fim.
Vida que começa e termina
Todos os dias assim:
A vida que faz poemas;
A vida das putas, beatas, inocentes falenas.
A vida dos bêbados e dos descrentes.
Ávida ciranda dos desvalidos,
Cicatriz dos convalescidos.
A vida, alegria dos ricos,
Fardo dos pobres;
A vida castelo de mendigos,
Choupana de nobres.
A vida, buraco sem fundo,
Fim de mundo,
Navalha cortante;
A vida, felicidades da esposa
E migalhas da amante.
A vida,
Escoria dos estorvos,
Planeta de corvos,
Ferida pungente...
A vida,
É a sina de uma gente que grita,
Que a vida é esse turbilhão
De incertezas e escolhas.
A vida é esse vinho lacrado
E sem saca rolhas!

PRÍNCIPES E SAPOS (atendendo a pedidos hehehe)

Todos são iguais entremeios.

No começo, verdadeiros Orfeus apaixonados,

repletos de gestos e anseios dissimulados.

Comparecem, se compadecem, mandam flores

e deixam doces mensagens na caixa postal.

Falam bobagens, cheios de coragem,

só pra ficar perto o bastante.

Até aceitam os defeitos de sua mais nova amante.

Fazem-se de mocinhos.

inofensivos carneirinhos...

Não passam de lobos mal alimentados!

Devoradores de sonhos estilizados!

Depois, vão ficando mudos, isolados

e até se fazem de surdos os condenados!

Desaparecem sem deixar vestígios ou recados,

não avisam as razões

e o que antes eram beijos,

transformam-se em arranhões.

Tudo é desculpa,

cansaço, estresse, labuta.

O maior culpado é sempre o trabalho.

É como em um jogo de baralho,

vence quem bate primeiro.

No começo há tempo para o sexo,

conversas sem propósito ou nexo,

namoros matinais,

colo, carinho, coisas normais,

como parque, cinema, divertimento,

de repente tudo cai para o segundo plano,

o do ESQUECIMENTO.

Viramos A B O R R E C I M E N T O !

Não pode falar nada

porque é cobrança exagerada.

Perguntar: “Onde você estava?

Porque não ligou?”,

é o mesmo que nada.

Ter ciumes, então!

Ah! Isso é coisa de criança,

nunca de mulher madura!

Chamam a gente de insegura

sem o menor tato.

Mas, ainda assim

mantemos na estante

o bendito retrato, que parece dizer:

“Está olhando o que?”

Ao que respondemos:

“Nada não! Estava só amando você!”

Mas aí se atura

porque a essas alturas

o coração já batucou forte lá dentro,

batendo descompassado.

A gente não acredita

em tamanha encenação

de artista consagrado,

afinal, ele era tão bonitinho,

tão engraçadinho e bem humorado

que parecia mesmo enviado por Deus,

o namorado.

Sem complexo algum,

na promoção da vida eu peguei um,

levei dois e fiquei sem nenhum.

Ah! Quanta esperança minada!

Quanta saliva desperdiçada!

“Como sou idiota!” - Você pensa

-“Abri a porta, deixei que ele entrasse...

Se ao menos eu não o escutasse.”

Mas sempre acreditamos nos tais

príncipes encantados,

verdadeiros anjos encarnados.

Chegam e roubam nossas noites e dias.

No fim de tudo descobrimos

que era tudo mentira pura ironia

e que tais carinhas de coitados,

no fim das contas,

escondiam sapos disfarçados.

RESPOSTA

Exagero, é não querer falar do vento, do tempo que me acorda toda manhã, com seu afã de me ver viver. Exagero, meu caro senhor, é não ter amor pra sentir no peito, pulsando em uma tarde de domingo, quando o ócio te visita em frente a TV. Exagero, é ocultar dentro de si mil lamentos e não deixa-los sair, não deixar-se levar pela maravilha do pranto. Exagero, é experimentar apenas o que se vê, como se não houvesse nenhum sentido em crer. Exagero, é não sofrer as demoras, não voltar, não ir embora, permanecer sempre ligado ao mesmo farol, sem enxergar a luz do sol. Exagero, é não compreender propostas, não aceitar nenhuma resposta que não uma só verdade absoluta, é fazer de uma pequena luta uma guerra estúpida, é achar que poesia não pode ser lúdica. Exagero, é fazer sofrer o outro por puro prazer, é deleitar-se com o sentimento alheio como se fosse brinquedo tosco, é tapar o rosto diante do que é importante, é usurpar as regras do bem querer, sendo vil e arrogante. Exagero, é ferir seu semelhante. Exagero, é perpetuar o ego, de uma forma desmedida, é não experimentar realmente o sabor da vida. Exagero, é fazer prevalecer seus caprichos,amargando em si mesmo, seus próprios e tolos vícios. Exagero, é tornar-se refém do nada, fazendo da sua estrada apenas um caminho sem sentido. Exagero, é não sofrer por amor, não ter uma paixão pra sentir doer, não ter o que lembrar, nem o que esquecer. Exagero é viver assim, sem saber morrer, é ter o ego maior que o corpo, engolindo a alma desse jeito torto, fazendo tudo ao redor parecer pequeno demais. Exagero, é não conhecer a paz de ser, muito mais que apenas existir. Exagero, é apenas querer, sem de fato conseguir. Exagero, meu caro amigo, é achar que transgride, sem jamais verdadeiramente transgredir, é fazer chorar e abster-se do prazer divino de ver sorrir. Exagero, é nunca terminar o que começou. Exagero, é cuspir na mão que o alimentou e depois de tudo vomitar aquilo que desejou.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

AMORES DIVERSOS

Há tanto amor em meus versos e, no entanto, os meus cantos estão sempre vazios,

Sussurrando pequenos orgasmos solitários e frios,

Que me adormecem as carnes da alma e refrigeram meus anseios mais ferinos.

De meus seios intumescidos escorre o leite fino da aurora,

Onde bebem os solitários e os sonhadores,

Mas nenhum amor me tange, me ama ou devora,

Nenhum deles me despe ou me veste uma fantasia,

Nenhum deles, como deveria,

Nem ontem, nem hoje, nem amanhã e nem agora.

Há tanto amor em meus versos e, no entanto, o meu acalanto é pálido e misterioso,

Não há sequer um embalo, um olhar mais ditoso

Que me cure essa ferida viva de guerra e saudade,

Que me deite sobre a sua insanidade e me experimente,

Como quem recolhe em si o sabor da própria sorte

Entre o vinho e a morte, doce e lentamente.

Há tanto amor em meus versos e, no entanto, minha boca é um mar de salivas mortas,

Um deserto de línguas novas, uma inundação de desejos escondidos,

Que vai proliferando gostos antigos,

Feito farfalhar de borboletas ligeiras,

Habitat natural de rudes sementeiras,

Que semeiam as palavras de uma vida inteira.

Há tanto amor em meus versos e, no entanto, sou apenas a mulher que carregou o pranto,

Por não ter sido descoberta

Embora a porta do corpo estivesse sempre aberta.

Paredes da Memória

Chora o violino mudo
guardado em caixa fúnebre.
Chora a nota que não houve,
que não coube no espaço da tarde.
Arde em silencio cada nota morta.
Deixa uma saudade do tempo
em que a liberdade
era dona das horas
e agora,
chora o violino triste
guardado na fotografia da história.

Chora o poeta das ruas,
o palhaço do mundo
agora mudo.
Chora nessa luta desarmada
contra uma censura
que não é censurada.

Nas ruas agora correm rios
de água salgada.
A arte virou crime
e marginalizada
chora a poesia
que deveria
fazer sua casa nas calçadas.

Chora o violino triste
com sua nota embargada
e parece que as lembranças de ontem
já não nos dizem mais nada.

terça-feira, 3 de abril de 2012

O SONHO DE ALICE

Agora é hora de acordar Alice.

O mundo real existe e ele aguarda

Exigindo sua presença,

Silencioso e suave como bruma

Se espalhando devagar sobre a aurora,

Querendo te levar com ele.

Você não é Lucy.

Você é Alice, apenas.

Mais uma Alice, somente.

Seu céu de diamantes

Era vidro e se quebrou.

Volte Alice!

Volte para a terra obscura

Das palavras fúteis,

Onde os homens estão determinados

A minar seus campos de flores

E matar suas borboletas.

Venha querida!

Ainda há pra você um jardim de inverno

Ou japonês,

Algo nem mata, nem mar,

Nem sol, nem estrelas.

Mas é seu.

Só seu, doce e inocente, Alice!

Acorde Alice,

Para o mundo real

Como quem desperta depois

De cem anos de ilusão

E ofuscada pela verdade,

Seus olhos ficarão cegos

Para o que é realmente maravilhoso na vida...

Essa parte ficará pra trás.

Mas pense Alice, você voltará para casa,

De onde jamais deveria ter saído voando,

Deixando seus sapatos fincados

Feito monumento de despedida.

Alice veja!

O que dói

É a sua coragem de acreditar,

Não em si a própria dor.

Você já sabia que seria curto

E estreito o caminho do amor,

Deste que você tanto desejou

E que mora,

Na casa dos sonhos,

Entre a fé e a esperança!

Isso não é para você Alice!

Há coisas maiores a serem feitas,

Muitas pessoas que precisam ser amadas,

Ainda mais que você,

Então chega Alice!

Desperta deste seu sono de merda

E olha a cara da vida de frente

De novo.

Tira este seu vestido de fita,

Bota o de chita

E prende o cabelo,

Volta pra vida que te aguarda

E que sente tanta saudade de ontem!

Sua amiga, a solidão,

Não para de perguntar por você!

Acorda bendita Alice!

Esperamos de garras abertas,

Em punho,

Dentes afiados,

Salivantes,

Olhos esbugalhados,

Para ver

O seu retorno.

Olha Alice, o seu reflexo

No espelho convexo

E me diz

Se você é o que vê

De verdade.

Depois de tanto sonhar,

Caríssima Alice,

É hora de acordar.