segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ENTREGA Para Hugo


Os teus olhos me desprendem da dor dos meus dias pálidos.

Ofereces à minha boca seca de sertões áridos,
borrifadas de risos e todas as águas tranquilas dos rios do mundo.

 A tua paz me habita como poesia tecida em retalhos,
em versos profundos e coloridos que pintam nos muros
o teu nome ao lado do meu em letras atemporais.

Nunca mais o naufrágio dos gestos,
o desencanto do beijo, o desalento do afeto,
o refugo do desejo, o lodo escorregadio
do resto que permanece e se esquece de não doer?

Nunca mais a solidão do ter em si só o eco
daquilo que sendo dois poderia haver?

Rendo-me, nua e inquieta ao marulhar do teu corpo,
porto para minhas fragatas exaustas de guerra,
e navego ao sabor suave da tua alma viva
como quem se joga ao destino das marés,
longe da certeza de chão que tem a terra,
incauta e silenciosamente como a brisa
que sopra morna e súbita sobre os meus pés
em noites de inverno cansado,
em dias de sonhos nublados.

E assim te recebo, inesperado:
um homem em um coração de menino
e quanto mais me soltas
mais leve te tornas e mais aprisionada me sinto.

sábado, 11 de agosto de 2012

ENSAIO Para Hugo

"Te mostro

o meu rosto


exposto



e te arrasto



com gosto



de rastro



com jeito 



de traço



no corpo



feito folha



no movimento



atento



do vento."

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

PALAVRAS NUAS

‎" E a vida segue com seus sons de fim de tarde. Barulhos de carro passando, buzinas, sinais de trânsito, malabares e palhaços inesperados brincando de trabalhar com a graça pelas ruas e praças, avenidas e quintais. Risos, falas que ficam ao vento, poesias libertas dos dedos, um pouco além daquilo que entendemos... Apenas sílabas, palavras soltas na brisa e nada mais. Mas há a palavra que fica e também aquela que volta. Há palavras que colam em nossa língua, céu da boca, garganta, coração, feito grude encantado. Essas palavras não se dissipam, são incapazes de desaparecer de nossas vistas e versos... Repetem-se sempre na tradução de uma emoção secreta, de uma canção descoberta, de um amor imensamente estranho que corrompe as regras e não segue opiniões, único em sua complexa totalidade. A palavra simplesmente acontece no percurso de uma vida inteira, em todas as estrofes do poema amanhecido, recém nascido, ainda no berço. Mas a vida segue, palavra por palavra. As que ficam e as que vão. As que nos divertem e as que nos fazem chorar. As que nos fazem desejar partir e aquelas que nos fazem ficar... Palavras, palavras, palavras... Entreolham-se, interpõem-se, interligam-se... Feito folhas dançantes, umas sobre as outras, como alegoria de outono bailando no ar da tarde mais vermelha. A vida segue com seus rios de neblinas e máscaras, segue sobre os trilhos das despedidas, sobre os olhos do encontro, segue seus passos na areia do tempo, inutilizando o descaminho e o abandono das horas. Tudo é um segmento de dias e noites que se misturam entre cabelos e corpos que seguem entrelaçados como no primeiro minuto. Ontem é o resultado de hoje, porque somos avessos. Os erros são novos e os amores não são mais os mesmos. Somos puros e nossos corações estão em chamas, as brasas são fortes e a fogueira é bonita, seremos fogo sempre, ainda que mornos, ainda que poucos, ainda que filhos da água. Nossas palavras estão coladas uma a outra, atadas como gêmeas carnes e dentes. Somos noivo e noiva. Manhã de outono, tarde de inverno... Quando a primavera chegar, talvez eu ainda esteja aqui e a gente possa brincar de contar letras e estrelas em astrolábios de papel crepom. Minha palavra se molha e se seca diante da sua... Formarei frases nuas e despropositas: “Liberta ME Que SEREI tua!” E seremos uma só intenção, sinônimos, emoção, correndo soltos pela alma colorida um do outro.” 

O SONHO DA SACOLEIRA


Passo tempo sorrindo
Por dentro
E indo
Rindo e sendo
Menino
Rodar peão
Moinho de vento
Passarinhar
Violão
Menina
Inventa e venta
Saia de filó
Pular amarelinha
Visitar a vovó
Pensar devagarinho
Escrever estrelas
Canto de rouxinol
Aquarelar traços
Contar beijos
Roubar abraços
Enfiar tudo isso numa sacola
Dar um nó
E pular fora
Sem deixar rastro.

sábado, 4 de agosto de 2012

NINHO POESIA

 "Poesia é ninho,


           pra onde passarinho volta 


                        quando tem frio  


                                    e se sente sozinho."

DESPERTA A DOR

"Sonhos acordam


e fazem barulho ao despertar,


quebram copos,


esbarram nas coisas


e tiram tudo do lugar."

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O PALHAÇO FALA A DOR (Para o meu grande e corajoso amigo Giglio)


Falo, porque tenho boca
e de maluca minha língua treme.
Falo, porque cuspo meus pensamentos
em forma de palavras ao vento,
jogadas na praça
em peregrino movimento
de pirraça,
fabricando castelos e ideias.
Falo, porque sou um fomentador,
um auditivo,
um palavreador,
um palhaço.
Falo, porque me acho ridículo
e sendo assim,
ser humano.
Falo porque tem quem escute,
quem reproduza um verso ou outro
das utopias que me vestem.
dos palavrões que me cabem,
Falo, porque tenho coragem.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

RASTROS

Rastro teus olhos nos meus e caminho.
Me desalinho na direção do tempo,
coalhando a ilusão dos instantes
por um mero momento,
rastejando pelas tardes
feito serpente de Eva viva.

Rubro o teu corpo no meu e singro.
Velejando em rio e mar,
molhando o tom natural das cores
dos destinos que eu sigo, sem me afogar,
dançando pelas frestas dessas manhãs,
como quem recebe a semente de Adão e sente.

Resta tua boca colada na minha,
Os teus olhos morando nos meus,
teu passo marcando os meus passos,
meus passos marcando os teus.

terça-feira, 24 de julho de 2012

SOBRE A PEDRA E O SAL


Tenho que chorar.
Minhas lágrimas de pó agora
se infiltram em meus olhos
desejosos de não responder a dor,
mas minha voz trêmula
não esconde o sal que rega minhas retinas.
Tenho que chorar.
Deixar que escorram
meus sentimentos mais odiosos,
minha vontade de que morram
todos aqueles que não me ouvem.
Tenho que chorar.
As lágrimas escorrem como pedras
e eu me entrego a elas.
como alguém que morre.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

DE OLHOS FECHADOS (Para Hugo)




Você me veste
como segunda pele,
aquece poros
acende pelos.

Você me despe
com a destreza
dos seus dedos
e desliza nu
sobre esses segredos.


terça-feira, 12 de junho de 2012

FELICIDADE


Não quero ser refém de nenhum precipício, pois coisa boa é ter um só vício na vida, apenas para não morrer hipócrita, e  amar é o tanto de medida que valha o desassossego no peito, que mais que isso é exagero somente e vaidade cheia, feito lua. Morrer de amor é para os santos e para os puros, que sabem amar esse amor incondicional e trágico dos risos mortos .Morrer é apenas um meio de transporte, de onde você parte de uma casa e vai morar em outra, só que muito, muito longe. Morrer é suportável. Viver é o verdadeiro e sepulcral tormento. Viver é muito maior que o momento, porque a vida é o momento que passa em si mesmo e o tempo...Ah! O tempo é braseiro se espalhando de encontro ao vento, que sopra, uiva, leva...livra...linha das horas costurando tudo com a mesma agulha prateada , do começo a outro começo, sempre! Queria levar a vida na sacola. Pouca coisa. Muita preguiça. Partindo de um gole a outro gole, de um instante ao próximo, de uma árvore a outra árvore, feito folha de outono viajando, apenas, sem nada a dever aos olhos alheios...Bom seria, se tudo fosse uma ilusão. Se por uns míseros e traiçoeiros segundos, pudéssemos vislumbrar além do véu que encobre o mundo. Não. Não! Definitivamente não quero moer minhas angústias de novo e de novo e de novo, até que minha alma esteja outra vez devassada! Viver exige mais que delírio, viver exige respeito. Aos seus ideais de merda, a bosta da música que você ouve, a porcaria de time para que você torce, a sua crença, as suas esperanças, ao seus desejos. Viver exige respeito pra caralho e a vida sempre vem cobrar na porta, a juros altos e fianças absurdas. A vida é foda! Não quero ser refém de nenhum abismo. Deixar que o nada me engula e não me rumine nunca mais e é isso que a vida ensina,coragem nunca foi sinônimo de auto destruição e a paixão é subterfúgio dos suicidas. Quero uma moda de viola em noite de inverno ao redor da fogueira no alto da montanha, uma vontade doida de comer batata doce e brincar de contar histórias de terror pra minhas filhas, uma vida simples, de emoções pequenas, nenhum sentimento maior que a lua prateando o céu  dos meus sorrisos...nada além do meu peito batendo feliz enquanto eu dançar, enquanto eu for maior que o meu ego. Eu quero o luzeiro dos vaga lumes enquanto roçam  o ar com suas bundinhas piscadeiras, contornando a escuridão e o céu apinhainho de estrelas que me contam a história da humanidade e sua origem. Não quero ser maior que as estrelas, quero apenas minha medida e meu peso em alforria de coração, nenhum nó, nenhum desperdício de instante, apenas a certeza de estar. Apenas estar e nada mais que me distraia do propósito de estar. Não quero me atirar de penhascos e nem ter que arrastar atrás de mim velhas inseguranças e desalinhos, correntes barulhentas, que me vasculham por todos os lados, até que eu não saiba mais de que lado estou. Não quero os mesmos erros. Já não me dizem nada, sequer uma sílaba me entusiasma. Erros antigos só servem para doer de novo e do mesmo jeito. Com erros velhos nada se aprende. Quero portanto cometer erros novos e maduros, erros saborosos, colhidos na estação mais doce o ano. Errar com outros olhos para novos dias. Estou farta de sonhos perfeitos que se desfazem. Melhor sonhar com aquilo que te deixa leve depois que acorda. Voar com asas firmes e pouso perfeito. Sonhar sem atropelar a delicadeza do belo, do bom, do gentil...viver como a vida vem, como ela acontece e sem pressa de passar a limpo esperanças destruídas, porque no fim das contas, nossa espera deveria ser apenas nossa. Esperar no outro é o mesmo que atirar flechas no escuro, portanto, sempre deixo luzes acesas.E assim será também o amor, feito de muitos segundos, milhares de gestos e nenhuma promessa, nenhuma certeza maior que o próprio sentimento, nenhum pedido desculpas e nem a mania de por no outro alguma culpa. A culpa é só a desculpa para não parecer arrogante e quando despejada em outrem, é uma forma imbecil de eximir-se da sua própria incapacidade. A culpa, é o que mortifica o homem e o inabilita para o que há de maior a sentir, a estar, a viver...a amar nesta vida .Não! Não quero mais desrespeitar meus sentimentos engolindo-os a seco, mas também não quero mais desaguá-los dos olhos toda vez. Quero apenas uns dias de paz e sol entre as nuvens cinzas, pra pintar colorido os dias nublados, mais lealdade nas palavras, mais zelo no afeto, mais cuidado nos passos e  aí sim, construir castelos sobre alicerces firmes. Portanto, que venham os dias melhores nos longos sorrisos que ainda darei e a isso chamarei felicidade.

domingo, 3 de junho de 2012

RASURAS


Estou escrevendo agora em autênticos guardanapos de boteco,
frases apenas, soltas e despretensiosas do poema,
passeando por essa manhã de domingo frágil e incomoda ,
como se não quisessem me dizer nada, apenas existir,
frases exaustas da canção e da invasão do nexo nos dias,
das emoções truncadas e das ruas vazias onde se soltam
das bocas inóspitas, das línguas hipócritas.
Estou escrevendo agora,
algo pra lembrar e pendurar nas paredes do tempo
depois que acordar,
como quadros antigos de molduras enormes,
enfeitando espaços vazios.
Estou escrevendo o que pretendo fazer enquanto vivo:
Botarei flores do campo em meus jarros mais antigos,
guardados dentro de armários ociosos
e darei bom dia ao cheiro de café fresco, ao beijo do sol, à música
e ao sorriso que pretendo guardar nos lábios pálidos.
Escrevo agora, como quem se habilita a morrer,
porque a morte tem o poder de tragar suas verdades
e sepultar seus sonhos,
faminta por engolir suas palavras mais sinceras.
Quem morre é mais honesto que quem vive.
Viver requer muita prática em mentir.
Escrevo, porque estou farta dessas angústias
e dessa terceira pessoal no plural que me habita,
de todas essas cretinices em que tenho me amparado,
por medo de me tornar ridícula.
Estou escrevendo agora, em preto e branco
enquanto tudo por dentro anda colorido,
enquanto o barulho do lado de fora não se torna aflitivo
e eu posso sentir o silencio das coisas que me levam.
Bem de leve!
Escrevo porque sou filha da palavra que me despe,
esposa do verso que me escolhe,
amante da rima me recolhe em seu ritmo,
mulher da poesia que invade meu íntimo
e dona dos dedos por onde ela escorre.
Escrevo despretensiosamente como alguém que dorme.


sábado, 2 de junho de 2012

A DEIXA...


Ensaiam agora
 uma outra nota.
O corpo em delírio
profundo se entrega,
esfrega-se
 a sua nova verdade,
como quem arde 
a pele em um milhão de facas
e sabe ser somente
mais um acorde triste
nas suas muitas mágoas
mas resiste.
A alma dança.
O peito arfa.
A boca beija.
O mover se lança
à nova farsa
como quem se deixa...

A LENDA DOS LORDES PERDIDOS



Os lordes antigos se vestem agora de beijos secretos,
já não anseiam pela vitória nos campos de batalha
e nem pela recompensa das mãos de uma donzela,
não empunham mais espadas ou navalhas
contra seus inimigos diversos,
afastam-se devagar e com cautela.
O lordes estão cansados!
Exaustos de guerra e solidão
e foram perder juízo e razão,
nos braços e bocas das ninfas do mar
e agora são a espuma branca a marear,
que se desdobra nas ondas
e beija a areia,
sem jamais ancorar.
Reza a lenda trágica dos lordes perdidos
que nunca mais foram vistos
 nas terras de Nosso Senhor.
E eu lhes pergunto sinceramente:
“O que há de tão triste, em se perder de amor?”

terça-feira, 29 de maio de 2012

LIVRO DAS REVELAÇÕES


Nas frias madrugadas de neve, póstumas ruas em névoas evolam-se.
Nos passos misturam-se as águas do homem e vive-se.
O homem é por direito total, aquilo que traz e diz,
e suas vestes são as vestes de uma bandeira que o traduza.
O homem é o que olha e o que molha os seus olhos,
é o que escorre pelo rosto em dias de guerra quente,
é o que sente do avesso e ao contrário diante dos espelhos.
O homem necessita mais de amores que de sexos,
mais de sexos, que de naufrágios,
muito mais ainda de refúgios,que de enganos.
É necessário que se reaprenda o caminho do fogo,
que se abra caminho as salamandras
para que iluminem os dias mais tristes do homem
e ele descubra onde está o chão que o faz voar, outra vez.
O homem precisa mais dos saltos, que das estrelas,
mais gestos e menos delírios, mais coro e menos eco,
e nas frias madrugadas de neve, o homem precisa de sapatos,
para que possa andar em segurança entre os ratos,
enquanto dissipam-se as nuvens devagar
sobre o sombrio e profundo alto mar,
no úmido tragar do inverno.
Na verdade...E o que seria?
O homem precisa de uma xícara para tomar seu conhaque,
de um fraque para usar uma vez na vida,
e de uma cadeira confortável para assentar a bunda fria.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

BORBOLETAS


Com a clareza dos dias límpidos, eu aguardo
enquanto novos versos agora escorrem por meus dedos.
Já não sou a mesma.
Meus pensamentos se desgrudam da névoa
e precipitam-se ao sol,
meus segredos sagrados se desfolham
ante os olhos nus que também me despem.
Minhas certezas já não me convencem
e nem meus pés estão tão firmes
quanto antes de acenderem as luzes.
Não me sinto mais deserto nem escuridão,
tudo renasce pela claridade que invade minhas janelas.
Estou farta de dragões e seus castelos mal assombrados,
farta do acumulo de lodo ao redor da cama,
dos lençóis úmidos de mentiras,
farta dos amores que já nascem esquecidos
e dos muitos caminhos perdidos dentro de mim.
Farta dos olhos avessos pela manhã vazia,
das coisas que se esquece de dizer
da leveza dos corpos na bruma...
Algo se debulha dos meus ramos secos,
algo tão vivo e vibrante
quanto a própria poesia encarnada
e eu sei que de mim saltam  agora borboletas
e não quero mais perde-las de vista.
De mim nascem outras fontes de água,
onde banhar-se é uma aventura inesperada.

domingo, 27 de maio de 2012

SUA





Eu  andaria descalça sobre o seu corpo,
caminharia nua nos seus passos,
vestiria seus olhos com os meus
e depois pousaria minhas asas cansadas
sobre seu peito.


Eu mergulharia no mesmo mar 
em que habitam suas água vivas
e daria a elas minhas vivas sensações,
e minhas emoções mais antigas,
daria a elas minha boca 
ainda que se queimasse,
para que guardasse dela
 o som do encontro.


Eu acreditaria em cada palavra,
gesto, canção, verso,
vindos dos nossos beijos,
da coreografia sem ensaios
das nossas línguas inquietas.


Eu seria sua se o tempo não existisse
e fossemos pura invenção da vida,
se os meus medos não fossem tão concretos
e a poesia tão etérea!


Eu seria essa manhã de domingo,
de fim de outono,
quando o sol frio aquece a pele
mas não os ossos,
quando os corpos se enlaçam
como se pudesse ser pra sempre,
como se pudesse ser encanto,
como se pudesse ser a orquestra do encontro tocando
sempre a mesma trilha sonora pros nossos dias melhores.


Eu seria esse mesmo olhar que te acorda de manhã,
puro e grato pela verdade,
esse mesmo corpo que cobre o seu,
morno e aquecido na sua pele,
seria só uma mulher e mais nada,
apenas uma mulher sobre o homem,
que se despe lentamente.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

SOBRE O AMOR EM DIAS NUBLADOS


Em dias cinzas e misteriosos como este,
obscuro retrato natural de um mês de Abril
enquadrado na minha janela,
eu largo a voz de leve ao vento e me alivio.
A poesia então venta folha e vai,
como quem tem fome de ouvidos atentos.
O dia esqueceu de acordar e eu não fechei os olhos.
Derrama-se uma chuva fina e chata sobre a minha casa,
estou molhada de descobertas cruéis sobre o agora.
Estou de volta do meu sono,
romântico cativeiro
e o dia sem sol, me cega a alma ainda quente,
ávida por vida que valha, seja e aqueça.
Estou vazia de rimas...Esse poema nasce nu de pretensões
e eu me sinto deposta e presa a segurança vazia
dos meus honestos cobertores.
Sobre o amor, só há divagações perdidas
entre esse e aquele desencontro.
Sobre o amor, eu nada sei além de mim,
do que deixei , muito longe daqui.
Sobre o amor, apenas esse retrato cinza
emoldurado na janela da cozinha,
enquanto observo e espero o inverno passar
para voltar a sentir.

sábado, 12 de maio de 2012

INSÓLITO CAOS



"Corre pelo mundo, de boca em boca, que a leveza é uma mentira e já não reconhecem a palavra lealdade. Nada mais é tão leve que consiga ser verdadeiro. O imediatismo adoeceu os pares e a peste da mentira espalhou-se pelo mundo. Tudo se desgoverna com a velocidade impiedosa dos dias. As noites pertencem aos leopardos, que espreitam vazios de amor as sonoras sendas das madrugadas. Não há mais nada que não seja vidro e bruma. Os sorrisos se perderam dos rostos e os rostos perderam a transparência do gesto, apenas os olhares não se escondem e, portanto, ainda assim se pode enxergar a bússola das emoções represadas e descobrir em que direção navega o órgão pulsante em seu peito, talvez por essa razão quase nunca os olhos se cruzem. As idéias acontecem muito mais rápido que em outros anos e as palavras se proliferam sem cuidado, sem adotar nenhum critério que tenha por base possibilidades honestas. Tudo é uma carroceria velha e barulhenta nesse mundo! Onde se escondeu o amor do planeta? Onde? Onde foi que  esconderam a coragem de ser? Onde instaurou-se o decreto de apenas existir diante da vida?Acho que estive presa por tempo demais a valores insignificantes e fugazes.Fui enganada a respeito das cores que pintaram meus cabelos, quando as cores dos cabelos eram as únicas falsidades sobre a terra. O que me aconteceu enquanto dormia? Onde foram parar as piadas de bom gosto, os apelidos carinhosos e os violões da serra? Eu procuro e só vejo neblina, inteligência e caos. Um caos de sentimentos soltos que na verdade não são sinceros, um caos de inverdades perfeitas, um caos de corpos que se tocam superficialmente, como segundas peles, que vestem a alma aprisionada na alegria vaidosa, em camisinhas furadas, falsificadas, que podem romper-se a qualquer momento, esparramando o rio de emoções trancafiadas em um corpo roto. Ah!! Poetas da minha guarda!! Loucos e lúdicos poetas da minha infância!! Me digam por onde andam as músicas com suas notas delineadas? Onde andam as paixões e os ardores? Onde? Raros são os amores que sobrevivem a essa cruel armadilha e a estes, rendo meus sinceros desejos de sempre...para sempre, com a mesma tranqüilidade que para agora. Eu ainda amo o amor, embora já não saiba recebê-lo. Eu ainda amo o amor! Ainda que seja breve o meu anseio de amar.Amar em dias assim, é frivolidade. Amar ficou nos tempos de quando eu era ontem, enquanto eu falava a mesma língua dos homens e podia dizer de dentro para fora o que sentia. A leveza que percebo me assusta, ventam demais nessas horas futuras e eu não caibo mais nos espaços de antes. Procuro um lugar para caberem minhas idéias e meus sentires, minhas vontades sinceras...No entanto, não culpo os dias de hoje pela minha solidão, isto é apenas saga dos seres legítimos, são efêmeros. Eu, poeta dos retirantes, aguardo a minha hora de partir, para aquele mundo, que não existe mais, onde habitei em instantes mais reais.”

quinta-feira, 10 de maio de 2012

ÁPICE


O corpo se move e se envolve,
envolto em pele, cheiro e desejo.

O corpo todo se precipita
ao beijo e saliva
e depois recolhe em seu porto
o corpo do outro, em ápice
regado a flores Semprevivas.

O corpo todo se esfrega e reage,
não nega a vontade que arde,
invade, irrompe, rompe, acende...e treme.

O corpo todo geme as carnes súbitas
úmidas de rios e debulha-se,
mergulha, entrega, não nega e aceita o movimento
se deleita desse vinho, alimento,
aquece esse ninho cama,
o corpo inteiro ama.

O corpo vai em voltas,
se revolta entre os pelos,
cabelos, nucas, tornozelos e bocas...

O corpo todo em noites roucas,
se espalha, se encaixa, se acha
e no outro se espreita.

Explode e o corpo todo se deita.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

SOBRE O AMOR E COPACABANA (Para H. A.)



Passa depois, quando o inverno já tiver passado por mim,
Quando as ruas estiverem mais quentes,
E eu for capaz de dizer não aos seus desejos.
Passa depois, quando o gosto do seu beijo,
For só uma lembrança morna na minha boca
E eu for capaz de silenciar minha vontade louca
De prender você na minha língua.
Passa depois, quando a saudade já tiver se retirado
Dos meus dias nublados, da minha cama vazia,
Dos meus cabelos desarrumados e da poesia.
Passa depois, quando o café já estiver frio,
Quando Copacabana não for mais o Rio,
Quando a gente for pra valer.
Passa depois,quando eu já não estiver tão nua,
Quando eu não for mais tão sua,
Sempre pronta pra te receber,
Quando tiver algo mais a dizer.
Passa depois, quando tudo estiver calmo aqui dentro,
Quando eu puder vislumbrar outro tempo
Que não esse, cheio de tempestades e ventos.
Passa depois de tudo isso acontecer,
Depois, que eu tirar esse seu cheiro de mim,
E quem sabe assim, eu possa passar por você.

PARTILHA

Hoje a noite não existem corpos nus 
espalhados pelo leito
e nem lençóis revirados...
Há apenas o frescor 
de uma manhã de quase inverno
e o estado perfeito 
de pensamentos molhados.
Hoje a noite nem um instante de insanidade 
ou movimentos apressados...
Há apenas esse momento de paz
em sonhos compartilhados.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

LUAR


Acenda suas luzes ao passar por mim.
Não me tateie no escuro.
Eu trago surpresas inesperadas
E sobre meu corpo
Todas as luas se deitam.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

LONGE

‎"A tua fome 
tem o meu nome
cravado no fundo


A tua saudade
é o meu corpo
perdido no mundo."

SOBREVIVENTE


Não há ócio em meu ofício e o desejo de existir me devora os nervos
acesos demais para tanta fadiga!
Não sei! Não sei de coisas que não tenha vivido!
Não sou e ser é toda a minha dúvida.
Não sou menos do que ontem, nisso caibo.
Tenho experimentado beber nas fontes inesgotáveis deste mundo
e meus vícios, tem sido maiores que meus dias.
Nunca tendo cogitado uma morte mais cruel que a lentidão do tempo,
 tenho me empenhado em viver das pequenas brisas que irrompem pelos meus sentidos cinzentos,
esses vou colorindo com meus ensaios sobreviventes.
Alguém me disse da inutilidade da dor.
Diz-me também, portanto,um único sofrimento que não sirva para nada
e eu talvez desista de dar crédito aos meus espinhos.
Ensina-me, então, uma maneira de não sentir
e eu talvez desista da poesia que me fala aos ouvidos,
que grita em meus sonhos mais ardis,
pois que a dor é a nascente dos meus andrajos poéticos surrados de versos ...
A dor é o caminho da minha história molhada de rimas.
Não há ócio em meu ofício.
Para tanto, eu precisaria ser menor do que tenho sido,
e ainda mais ínfimo que tudo o quanto tenho percebido,
eu precisaria não escrever aquilo que tenho escrito
e minha voz não passaria de mero delírio.
O nada eu seria em tudo e nem sequer um ato meu mudaria a minha vez.
Eu ainda prefiro ser maior que o átomo a condenar-me ao suplício de não viver minhas tempestades!
Ah! Quanto gosto tenho tido em ser sem ter sido na verdade, mas tendo sentido tudo!
Quanto prazer em experimentar os rios de risos e as labaredas de lágrimas
que me esculpem humana, que me explicam a essência daquilo que tenho escolhido!
Quanta verdade existe no que acredito, sem mesmo ter a certeza dela!
E então, aí sim,quando eu tiver morrido,minha carne não será maior que o verme
que se deleita com meu gosto e o meu rosto,
apenas a palavra sem moldura dos meus inevitáveis anos.
Mas aquilo que fui sem, no entanto saber, fluirá para o eterno lugar dos meus pensamentos,
Onde habitam aqueles que como eu não se deixaram levar pela ilusão sombria da mortalidade
e enfim, eu conhecerei a verdade original das coisas.
Até lá, vago viva, vislumbrando o vento,
enquanto ele me leva ao meu próprio encontro.



LÍRIOS (Ao amigo Leandro Lenne)


Lentamente a canção veste-se de cores...
São os amores perdidos que se cobrem de lírios. Delírios!
As flores sobre a mesa ensaiam o pretexto da chegada.
A senda se abre para receber a alvorada
Que se solta morna nos finos fios de seus cabelos
E o perfume invade a casa fechada.
Uma a uma, as pétalas róseas começam a saltar.
Um salto para além de uma última primavera.
Quisera eu, ter esse gesto de espera
E aprender a amar como quem chega
Nas notas da canção inesperada,
Onde a poesia é o corpo da mulher amada.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

AMOR FELINO (Para Hércules, meu gato preto)

Enrosca-se
em meus tornozelos
com seus pelos
como quem conhece
os meus desmazelos
Me espia
como quem sabe
e mia
como quem já me sabia.

domingo, 29 de abril de 2012

SENTINDO

Eu gosto desse cheiro que fica 
que se esparrama pelo sonho
quando vem a madrugada
Gosto dessa pele que roça
desse corpo que se enrosca
sem palavras...
Gosto dessa boca que beija,
beija, beija
e não exige nada.

sábado, 28 de abril de 2012

O SAL DA IDADE

"Saudade é uma palavra que eu não sei sentir.
Saudade é uma palavra que eu não sei.
Saudade é uma palavra.
Saudade é.
Saudade."

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ENTRE PARTIDAS E CHEGADAS

PARA DICO, CUNHA, CLARA, ANA, GABRIELA E PARA A ÁFRICA 
(UMA POESIA MUITO PESSOAL)

"Partir a parte de mim 
que me versa em poemas simples,
que me cobre de beijos
pela manhã encoberta de risos,
que dança pela casa sua inocência toda,
que enfeita meu cinza de colorido
e que me envolve em nova ausência muda
quando parte.

Partir a parte de mim que me cabe,
que sabe de minhas tolices
mas ainda assim vive 
como não soubesse nada,
como só houvesse a chegada.

A parte de mim que parte
leva uma parte de mim
que se modifica
na minha parte que fica."

SEM POSSE

‎"Sendo sua, 
não posso mais 
ser só minha.
Minha, 
agora está além
do que eu sentia,
quando ser só sua
não havia."

terça-feira, 17 de abril de 2012

TE BEM QUERER

O meu querer bem
tem um bem
que mais ninguém tem,
é olhar
no fundo do seu olhar
mais profundo
e me ver lá também.

sábado, 14 de abril de 2012

INCÊNDIO

prove
aprove
reprove
mas deguste
sem embuste
e me veja
seja
o alvo
ressalvo
da minha
palavra
acesa.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

FARSA

De onde mesmo eu vinha
quando tudo desmoronou?
Pra onde mesmo eu vou?
Porque somente agora
me apavora
essa ideia de não saber,
de não ser?
Quem saberá o que eu não sei,
de mim,
daquilo que serei?
Justo eu, que de nada sei.
Nada sei!
A não ser desse tudo que não fui eu.
Em que instante
a vida que era minha se perdeu?
Sou uma farsa improvisada
em meios versos?
Sou todo esse deserto?
Só há perguntas
sem nenhuma conclusão...
Seria uma perfeita alucinação?
Só ilusão?
Sou ilusão.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

DESPERTAR (Para o bicho que me espreita por dentro)

Enquanto você se esconde em minhas torres
cortando os céus do meu domínio,
enquanto se alimenta dos meus pastos
e transpõe os meus escudos,
enquanto venta em meus moinhos
os seus uivos mais estridentes,
enquanto entredentes
rasga minhas flores
e abrevia as cores das minhas manhãs,
enquanto quebra meus relicários
e profana meus talismãs,
enquanto corrompe meus guardiões
e derruba minhas muralhas,
enquanto se espalha...
eu continuo atenta ao momento
de acordar
em que você será
apenas o esquecimento.
Será?

A FLOR E A LAPELA

E a flor que se arranca do chão
é a flor semeada em vão
voa vento em qualquer direção
vai varrendo essa concepção...

Vai envolvendo a flor
em brisas de despedida,
vai colhendo seu sopro de vida.

E a flor desbotada já não cora,
e vai levando seu sonho embora,
de apenas por um minuto
saber-se a poesia no mundo.

A flor que se arranca do chão
é só uma flor que se arranca do chão.

Ela não era uma flor tão bela!
A flor onde falta uma pétala,
não fica bonita em nenhuma lapela.


EXPECTATIVA

Eu já esperei muito tempo que os dias passassem,

já esperei demais portas se abrirem, cortinas se fecharem,

a noite cair, a fogueira acender, a bebida gelar, o isqueiro funcionar.

Esperei muito tempo até que meus olhos se abrissem,

que meus pés entendessem as pedras pontiagudas do caminho.

Esperei por horas um telefonema, uma canção

que tivesse meu nome, um brinde em minha homenagem.

Esperei ser amada, ser traída, ser sujeitada, ser demolida, ser punida,

ser agarrada, mordida, ferida...Sempre esperando o lobo mau chegar.

Esperei na fila do cinema, na borracharia, no banheiro,

na calçada, no ponto de ônibus, em casa.

Eu já esperei filho, duas vezes, já esperei leite secar,

fralda coarar, mamadeira esfriar, pediatra chegar,

febre baixar, criança arrotar...

Já esperei em fila de padaria pelo pão fresco,

pelo doce de abóbora com queijo e a broinha de fubá.

Eu já esperei arrumada, descabelada, de calcinha.

de escova, de baby liss, de dente escovado,

limpinha, fedida, cansada, acesa...

Já esperei um beijo, um toque, um afago,

um olhar, um motivo, uma madrugada...

Já esperei alguém chegar, alguém partir,

alguém chorar, rir, morrer de rir,

rir até explodir!

Eu sempre esperei o fim do filme, do livro,

da história, da novela.

Sempre esperando e esperando chuva, sol,

vento, mansidão...

Eu já te esperei tempo demais!