segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ENTREGA Para Hugo


Os teus olhos me desprendem da dor dos meus dias pálidos.

Ofereces à minha boca seca de sertões áridos,
borrifadas de risos e todas as águas tranquilas dos rios do mundo.

 A tua paz me habita como poesia tecida em retalhos,
em versos profundos e coloridos que pintam nos muros
o teu nome ao lado do meu em letras atemporais.

Nunca mais o naufrágio dos gestos,
o desencanto do beijo, o desalento do afeto,
o refugo do desejo, o lodo escorregadio
do resto que permanece e se esquece de não doer?

Nunca mais a solidão do ter em si só o eco
daquilo que sendo dois poderia haver?

Rendo-me, nua e inquieta ao marulhar do teu corpo,
porto para minhas fragatas exaustas de guerra,
e navego ao sabor suave da tua alma viva
como quem se joga ao destino das marés,
longe da certeza de chão que tem a terra,
incauta e silenciosamente como a brisa
que sopra morna e súbita sobre os meus pés
em noites de inverno cansado,
em dias de sonhos nublados.

E assim te recebo, inesperado:
um homem em um coração de menino
e quanto mais me soltas
mais leve te tornas e mais aprisionada me sinto.

sábado, 11 de agosto de 2012

ENSAIO Para Hugo

"Te mostro

o meu rosto


exposto



e te arrasto



com gosto



de rastro



com jeito 



de traço



no corpo



feito folha



no movimento



atento



do vento."

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

PALAVRAS NUAS

‎" E a vida segue com seus sons de fim de tarde. Barulhos de carro passando, buzinas, sinais de trânsito, malabares e palhaços inesperados brincando de trabalhar com a graça pelas ruas e praças, avenidas e quintais. Risos, falas que ficam ao vento, poesias libertas dos dedos, um pouco além daquilo que entendemos... Apenas sílabas, palavras soltas na brisa e nada mais. Mas há a palavra que fica e também aquela que volta. Há palavras que colam em nossa língua, céu da boca, garganta, coração, feito grude encantado. Essas palavras não se dissipam, são incapazes de desaparecer de nossas vistas e versos... Repetem-se sempre na tradução de uma emoção secreta, de uma canção descoberta, de um amor imensamente estranho que corrompe as regras e não segue opiniões, único em sua complexa totalidade. A palavra simplesmente acontece no percurso de uma vida inteira, em todas as estrofes do poema amanhecido, recém nascido, ainda no berço. Mas a vida segue, palavra por palavra. As que ficam e as que vão. As que nos divertem e as que nos fazem chorar. As que nos fazem desejar partir e aquelas que nos fazem ficar... Palavras, palavras, palavras... Entreolham-se, interpõem-se, interligam-se... Feito folhas dançantes, umas sobre as outras, como alegoria de outono bailando no ar da tarde mais vermelha. A vida segue com seus rios de neblinas e máscaras, segue sobre os trilhos das despedidas, sobre os olhos do encontro, segue seus passos na areia do tempo, inutilizando o descaminho e o abandono das horas. Tudo é um segmento de dias e noites que se misturam entre cabelos e corpos que seguem entrelaçados como no primeiro minuto. Ontem é o resultado de hoje, porque somos avessos. Os erros são novos e os amores não são mais os mesmos. Somos puros e nossos corações estão em chamas, as brasas são fortes e a fogueira é bonita, seremos fogo sempre, ainda que mornos, ainda que poucos, ainda que filhos da água. Nossas palavras estão coladas uma a outra, atadas como gêmeas carnes e dentes. Somos noivo e noiva. Manhã de outono, tarde de inverno... Quando a primavera chegar, talvez eu ainda esteja aqui e a gente possa brincar de contar letras e estrelas em astrolábios de papel crepom. Minha palavra se molha e se seca diante da sua... Formarei frases nuas e despropositas: “Liberta ME Que SEREI tua!” E seremos uma só intenção, sinônimos, emoção, correndo soltos pela alma colorida um do outro.” 

O SONHO DA SACOLEIRA


Passo tempo sorrindo
Por dentro
E indo
Rindo e sendo
Menino
Rodar peão
Moinho de vento
Passarinhar
Violão
Menina
Inventa e venta
Saia de filó
Pular amarelinha
Visitar a vovó
Pensar devagarinho
Escrever estrelas
Canto de rouxinol
Aquarelar traços
Contar beijos
Roubar abraços
Enfiar tudo isso numa sacola
Dar um nó
E pular fora
Sem deixar rastro.

sábado, 4 de agosto de 2012

NINHO POESIA

 "Poesia é ninho,


           pra onde passarinho volta 


                        quando tem frio  


                                    e se sente sozinho."

DESPERTA A DOR

"Sonhos acordam


e fazem barulho ao despertar,


quebram copos,


esbarram nas coisas


e tiram tudo do lugar."

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O PALHAÇO FALA A DOR (Para o meu grande e corajoso amigo Giglio)


Falo, porque tenho boca
e de maluca minha língua treme.
Falo, porque cuspo meus pensamentos
em forma de palavras ao vento,
jogadas na praça
em peregrino movimento
de pirraça,
fabricando castelos e ideias.
Falo, porque sou um fomentador,
um auditivo,
um palavreador,
um palhaço.
Falo, porque me acho ridículo
e sendo assim,
ser humano.
Falo porque tem quem escute,
quem reproduza um verso ou outro
das utopias que me vestem.
dos palavrões que me cabem,
Falo, porque tenho coragem.